quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Malta em Agosto

Mais um ano passado... com um número reduzido de posts, resultado de uma mistura de preguiça com atribulações profissionais. À semelhança do que tem vindo a ocorrer desde 2008, a passagem de mais um mês de Agosto é uma terapia eficaz para mitigar o problema da preguiça, sem esquecer que esse mês carece, geralmente, das tais atribulações. A isto não é certamente alheia a força terapêutica das viagens de férias...
O destino, este ano, foi Malta. Apesar de ser um país da UE (aderiu em 2004) e de já ter o € como moeda, as ilhas 'plantadas' em pleno Mar Mediterrâneo oferecem ao visitante algo que as diferenciam, não fossem elas, linguistica, urbanistica, cultural, sociologica e antropologicamente o resultado de uma exótica mistura de influências do sul da Europa e do Norte de África.
O que foi Malta? Entre outras coisas:
  • o contacto com uma história (e pré-história) riquíssima

As ruínas do templo de Hagar Qim (3600-3200 a.c.)

A entrada principal do palácio do Grâo-Mestre da Ordem Militar e Hospitaleira de S. João Baptista



As salas substerrâneas onde foi planeada (por Patton e Montgomery) a invasão da Sicília pelos Aliados, conhecidas por Lascaris War Rooms.



  • a apreciação de monumentos grandiosos...

A co-catedral de S. João, em Valetta

  • ... e de dádivas da Natureza

A 'janela azul', situada em Dwejra, na ilha de Gozo.


  • a participação nas cerimónias fúnebres de um antigo presidente de Malta e da Assembleia Geral da ONU, Guido de Marco

  • a degustação de uma Cisk (a principal cerveja local) no pub onde morreu o actor inglês Oliver Reed (ver história em http://www.olliereed.co.uk/)...

O 'The Pub', na Triq I-Arcisqof (La Valetta)



  • O usufruto da mobilidade de um exótico sistema de transportes públicos...



Um 'exemplar' bem ilustrativo da frota de autocarros que servem toda a ilha de Malta (os de Gozo são cinzentos e vermelhos)... lembrei-me sempre (com um sorriso, claro) do discurso tão em voga na UE sobre mobilidade sustentável).

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Keleti pu

Keleti pályaudvar! Traduzindo do húngaro resulta em qualquer coisa semelhante a estação do Este. Daqui partem de e chegam a Budapeste muitas ligações ferroviárias internacionais, transformando a estação numa referência para os viajantes que demandam terras magiares e mesmo do leste europeu. O meu primeiro contacto com a Keleti pu (como é geralmente apelidada) teve lugar em 1978, o ano de estreia no que ao Inter-Rail respeita. A estação marcou o início de uma das etapas que, naquele ano, me levariam na companhia da minha tia Maria até Cluj-Napoca na Roménia. Uma etapa cuja história inclui actividade ilegal por parte da minha tia que, não tendo conseguido comprar o seu bilhete atempadamente na Keleti pu, acabaria por subornar com marcos alemães os dois revisores, o húngaro antes do comboio cruzar a fronteira em Biharkeresztes, e o romeno já nas imediações da primeira cidade romena, de seu nome Oradea. Voltei em 1981, proveniente da então Checoslováquia. Episódios marcantes desta vez? Talvez um pedido de qualquer coisa para comer no buffet da Keleti pu, qualquer coisa que julguei ser uma espécie de costeleta, mas que 'resultou' numa espécie de pepino embebido num molho castanho de sabor inenarrável. Talvez, a descompostura que um indíviduo de fato e gravata deu a uma jovem húngara em pleno cais da estação, cuja origem, numa base puramente especulatória, pensei estar no expressivo decote que a 'descomposta' apresentava.
Regressei à Keleti pu há poucos dias. Depois de uns dias de actividade académica na cidade de Pécs (lê-se pêtche), utilizei o Inter-City que liga aquela cidade do sul da Hungria para chegar a Budapest, onde tinha de apanhar o avião para Frankfurt no dia seguinte. Diferenças? Poucas em termos estruturais e arquitectónicos. Muitas, em termos da 'clientela'... muitos 'chatos' (por exemplo, 'Taxi? Taxi? No, thank you! Taxi? Taxi? Taxi?, No, Thanks!, Taxi, etc.), muitas pessoas a pedir dinheiro à saída dos cais, algumas senhoras que, pelos seus vestidos de cores berrantes e decotes muito mais acentuados do que o da pobre rapariga alvo da ira do homem de fato e gravata, não deixavam grandes dúvidas quanto à razão da sua presença na gare. A Praça Barossi, o primeiro ponto de contacto com Budapeste para quem chega à capital húngara de comboio, estava diferente também, isto devido às obras de remodelação que aquele espaço urbano está a sofrer, como aliás se pode 'desconfiar' através da foto abaixo reproduzida.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

(Re)encontros virtuais...

"Políticas locais de educação". Esta foi a frase que inseri num motor de busca da WWW, resultado de uma recolha de informação sobre um tema novo que me propuseram investigar. Milhões de 'entradas' (mais concretamente, cerca de 11.500.000!!!), claro. De coisas como "Ressignificando a Política de Educação Permanente em Saúde" a "Brasília não é o local para brigar pela qualidade da educação. ... vai pensar duas vezes antes de nomear outro imbecil, como moeda de troca da política", apareceu de tudo um pouco. Conferindo utilidade à experiência acumulada de quem, há vários anos, tem na Internet uma ferramenta de trabalho essencial, a balbúrdia inicial foi-se tornando cada vez mais 'balburdiazinha', até desaguar num conjunto de 'entradas' com potencial de utilização. Fui clicando para refinar o processo de selecção e, no decurso da tarefa, deparei-me com um PDF que, apesar do seu conteúdo informacional não constituir grande ajuda, me suscitou interesse particular devido a um nome e a uma foto. Memórias de tempos idos, cronologicamente inseridas no período 'interrailiano' e geograficamente referenciadas à Grécia...
No fim do PDF, um endereço electrónico que, para além de me propiciar um meio de comunicação, me dava indicação de que o tal nome e a tal foto eram de uma colega do ensino superior, não me dizendo nada, claro, sobre se era ou não uma amiga feita em 1980 em Atenas, a quem já não via há cerca de três décadas. Enviei um e-mail onde 'contextualizava' a memória com algumas frases-chave - "Inter-Rail em 1980, Grécia (Atenas, a ilha de Andros, a retsina do Nikos...)"- e, 'just in case', pedia desculpa por uma eventual confusão. Um dia depois, veio a resposta: "...tanta imagem, tanto cheiro a mar e retsina e a tu a pingar de calor". Décadas depois, vou poder ver o 'outro lado' da fotografia tirada na ilha de Andros e que aqui se reproduz...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

... kommunikálni a magyar!

A língua húngara não despreza as suas profundas raízes nos Montes Urais, manifestando, assim, à semelhança daquilo que ocorre com línguas suas parentes (afastadas apesar da raíz comum), como sejam o finlandês ou o estónio, vocabulário e estrutura muito (mesmo muito) diferentes das restantes línguas europeias. "Nagyon köszönöm" e "a sör jó", respectivamente "muito obrigado" e "a cerveja é boa", eram das pouquíssimas coisas que eu sabia dizer na língua magyar. Desde cedo aprendemos que a eficácia da comunicação verbal implica a existência de (pelo menos) um emissor e um receptor e a partilha de um código básico que, na sua essência, configura uma língua. Sem me atrever a pôr em causa a sabedoria de tais ensinamentos, atrevo-me a questionar o status de condição sine qua non da comunicação verbal que é atribuido à partilha de um código linguístico comum. Contextualizemos...
Os cerca de 180 km que separam Hegyeshalom de Budapeste estavam a ser percorridos vagarosamente pelo comboio da MAV (Magyar Államvasutak, a CP lá do sítio). No meu compartimento, um grupo de idosos húngaros partilhavam comigo algum tédio, tédio que não terá sido alheio ao pontapé de saída para a conversa dado por um dos húngaros. Pretexto? O grande 'sol' de protesto contra a energia nuclear cosido na minha mochila: Atomkraft, nein danke!. "Deustchland?", perguntou, decerto muito mais influenciado pela língua dos escritos do tal 'sol' do que pelas minhas características físicas. "Nein, Portugal!", respondi. Foi este o inesperado mote para uma conversa que durou tanto ou mais do que as pilhas Duracell. Na ausência de partilha do tal código sofisticado, a comunicação encontrou sustento no prosaico mundo do futebol.

-Eusébio!
- Puskas!
- Coluna!
- Béla Guttmann!
- Benfica!
- Ujpest Dozsa!
- Vasas!
- FC Porto!
... etc., etc..

Ofereceram-me uma cerveja. Lá brilhei com o "Nagyon köszönöm" e o "a sör jó"...
Mais recentemente, numa viagem à China, o poder comunicacional do futebol esteve mais uma vez em evidência. Um aluno de arquitectura da Universidade de Shanghai, no seu peculiar inglês, perguntou-me:
- De que país vens?
- Portugal.
- ??????.
- Portugal.
-???????.
Desenhei um mapa da Europa num pedaço de toalha de mesa. De Este para Oeste fui apontando a França, a Espanha e, finalmente, o nosso cantinho à beira-mar plantado.
- Ehhhhhhh!!! Figo! Figo! Figo! "Pú táo yá"! "Pú táo yá"!

domingo, 18 de outubro de 2009

Lambidelas em flashback...

Não é novidade para ninguém que as viagens de avião já não são o que eram. A massificação, a competição entre companhias, as ditas 'low-cost' (a curto prazo uma 'maravilha' da mão invisível do mercado, a médio, longo prazo, o 'carrasco' da aviação civil), transformaram uma viagem de avião em algo parecido com o acto de 'apanhar a carreira'. Cabe neste contexto a recorrente busca pelo bilhete mais barato, busca que pode implicar o itinerário mais inesperado, as 'aventuras' aeroportuárias mais inusitadas, ou a antítese daquilo que se espera de uma viagem, de avião... a rapidez. Na semana que passou, recolhi evidência empirica que sugerem a existência de outras implicações...
Tendo como destino final a cidade finlandesa de Tampere, a 'melhor solução' levou-me de Lisboa a Hamburgo, de Hamburgo a Helsínquia e de Helsínquia a Tampere (o regresso ditou um Tampere-Helsínquia-Estocolmo-Lisboa). Em Hamburgo, cinco horas separavam o horário de chegada do Airbus 319 da TAP da partida do Embraer 190 da Finnair. Apesar de gostar de aeroportos e de não me importar muito de passar umas horas a apreciar o peculiar ambiente que os caracteriza, apanhei o Strassenbahn e em 25 minutos estava no centro de Hamburgo. Há 30 anos que não visitava aquela que foi uma das principais cidades da Liga Hanseática. Fi-lo quando (curiosamente) também almejava alcançar as terras nórdicas da Finlândia. Saí na Hauptbahnhof (a estação central), deambulei pela Kirchenallee, percorri as margens do Aussenalster, o grande lago, e os caminhos que, por baixo da Ponte Kennedy, levam ao Binnenalster, o pequeno lago, a praça da Câmara Municipal... um dejá vu com três décadas.
De volta à Hauptbahnhof para apanhar o S-Bahn com destino ao aeroporto, um momento para olhar para a enorme gare e os enormes gleis (cais), com particular incidência para o nº 6: em Agosto de 1979, aquela plataforma serviu-me de 'hotel'; foi naquela plataforma que fui acordado pelas lambidelas de um enorme cão da polícia ferroviária alemã; foi também ali que estive cerca de duas horas a falar italiano com um backpacker (eu pensei que ele era italiano e vice-versa) que vim a descobrir viver em Esgueira e ser estudante na Universidade de Coimbra, aliás como eu, na altura.

sábado, 26 de setembro de 2009

Den lille havfrue...

Não errarei muito se disser que é o ex-libris de Copenhaga. Evidenciam-no todas as brochuras turísticas, todos os livros sobre a geografia da Europa, todos os postais ilustrados, tal a 'transversalidade' do ex-libris relativamente a todo esse manancial de informação sobre a capital dinamarquesa. Falo da estátua da pequena sereia, Den lille havfrue, na língua indígena, que, desde 1913, 'vigia' uma das principais entradas do porto de Copenhaga.

Reza a história que a escultura é o resultado do 'entusiasmo' provocado no filho do fundador da Carlsberg por um bailado que tinha na fábula da pequena sereia a sua temática (com música de Piotr Tchaikovsky). A bailarina principal acabou por servir de modelo a um escultor dinamarquês, de seu nome Carl Jacobsen. Ao longo dos anos, a escultura foi ganhando notoriedade e acabou por se transformar numa das principais atracções turísticas de Copenhaga.
Quando fui pela primeira vez à mais 'sulista' das capitais nórdicas, depois de umas (poucas) horas de sono num banco do cais 6 da Københavns Hovedbanegård (a estação principal...), 'formatado' pela fama que a tal sereia já tinha granjeado, depressa me pus a caminho na direcção de uma coisa que eu sabia chamar-se Langelinie, que eu desconfiava (por analogia com o inglês) equivaler a Linha Longa e que acabaria por descobrir as razões de tal designação toponímica. De facto, a pequena sereia dista da estação cerca de 7 km, se tormarmos o caminho que passa pelo (também famoso) Nyhavn, por Kvaesthusgraven e pelo Inderhavnen, ou seja, a rota 'marítima' (porque, na sua maior parte, ao longo do porto de Copenhaga).
Eis-me finalmente no Ved Kongeporten, o pedaço de caminho final... ao fundo, um burburinho, feito essencialmente de turistas nipónicos que se empurravam uns aos outros ao mesmo tempo que iam dando uns gritinhos dignos de qualquer mestre de kung-fu e manejavam com mestria as Canon, Nikon, Pentax e outras que tais. Não havia que enganar. O objectivo da longa caminhada tinha sido alcançado. Agora, o problema era outro. Por muito que me esforçasse, não conseguia um vislumbre da célebre sereia. De facto, apesar de me poder valer do factor altura para conseguir um 'nicho' de visão através da mole humana asiática, não havia sinais da estátua. Como o burburinho estava para durar, aproveitei para ir dar uma volta na magnífica zona verde envolvente e acabei por descobrir um interessante museu sobre a Resistência dinamarquesa na II Guerra Mundial (http://www.natmus.dk/) e a Citadela (Kastellet).
Durante uma pequena trégua da 'invasão' japonesa, consegui aproximar-me da pequena sereia, tirar a respectiva foto (... com a minha Instamatic, claro), que acima se reproduz, e, de alguma forma, sofrer uma desilusão: o grande ex-libris de Copenhaga, apesar de se apresentar como uma bela escultura, media pouco mais de um metro de altura, dimensão que dificilmente se associa a um 'landmark' urbano. Pelo menos encontrei o motivo porque não consegui tirar partido do factor altura...
Voltei a Copenhaga uma série de vezes, nem sempre com tempo para ir visitar a pequena (literalmente) sereia. Numa das últimas visitas, voltei a calcorrear os tais 7 km. Lá estavam os japoneses e as suas máquinas (agora digitais...) e lá estava a estátua de olhar perdido nas águas do porto de Copenhaga. Dei por mim a pensar: tem menos 323 metros do que um outro ex-libris (a torre Eiffel) de uma outra cidade (Paris); continua, no entanto, a fazer com que milhões pisem o Ved Kongeporten para a ver.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Números...

Números... qualquer viajante é obrigado a lidar com muitos. Gleis 3, binario 7, Laituri 2, autóbusz 235, λεωφορείο 18, etc.. Alguns desses números, porque associados a momentos que, de alguma forma, assumem alguma peculiaridade (para o bem e para o mal...), acabam por ficar retidos na memória. Este é o caso do 29, o eléctrico que me transportava do centro de Praga para o Troja Camping, local de pernoita na capital da antiga Checoslováquia.

Da I.P. Pavlova, em pleno centro histórico, o tram 29 cruzava duas vezes o rio Vístula (Vltava em checo) e, entre outros 'momentos' urbanos que mereciam destaque, passava mesmo à porta do estádio de futebol do Dukla de Praga, clube que, como era frequente no Leste, foi, até 1990, patrocinado pela exército checo. Depois de tempos gloriosos nos anos 60 e 70 (excelente carreira europeia), na década de 90 o FK Dukla acabaria por entrar em declíneo (o patrocínio do exercito esfumou-se...) e o clube desapareceu do mapa futebolístico. A dez minutos do estádio, a paragem do 29. A quinze minutos (a pé) da paragem, o Troja Camping.